O Factory Model e a educação em 2022

Sabias que o sistema educativo atual se baseia no modelo da Revolução Industrial?

Em meados do século XIX surgiu nos Estados Unidos e noutros países o “Factory Model”, um sistema educativo que pretendia dar acesso à educação a todos, independentemente da sua classe social ou rendimento, bem como preparar mão-de-obra em abundância de forma a fornecer trabalhadores qualificada para as indústrias em crescimento.  

O surgimento deste modelo foi muito positivo, porque democratizou o acesso ao ensino e à educação, que até então era apenas acessível a uma elite minoritária. Este modelo permitiu também que as pessoas adquirissem conhecimentos e competências que lhe permitiam obter trabalho e rendimento.

O que carateriza este modelo?

Os alunos são agrupados de acordo com a sua idade, colocados numa sala em filas e com o professor na frente da sala (tal como operários numa fábrica). Todos os alunos aprendem os mesmos conteúdos da mesma forma e ao mesmo ritmo sem qualquer forma de ensino individualizado. 

O grande objetivo deste modelo é a democratização do ensino, ou seja, que este seja acessível a todos, de forma a que todos possam ser membros produtivos da sociedade.

Mas nem tudo é positivo…

Este modelo não tem em conta as particularidades de cada aluno, nomeadamente os seus conhecimentos prévios, a sua experiência, o seu contexto familiar ou social e espera que todos aprendam os mesmos conteúdos ao mesmo ritmo. Em nenhum momento é avaliado se um aluno está pronto, do ponto de vista do seu desenvolvimento intelectual, social ou emocional, para apreender determinado conteúdo.

Da mesma forma não é estimulada a criatividade do aluno, tão essencial ao seu desempenho profissional, bem como ao seu desenvolvimento pessoal. Competências como a resiliência, a flexibilidade ou o trabalho colaborativo são ignoradas. Como poderão estes jovens vir a ser profissionais criativos, empreendedores, resilientes? Como poderão estar disponíveis para tentar, errar e voltar a tentar? 

Além disso, o valor do aluno é apenas medido pelo seu desempenho académico, ou seja, é bom aluno e considerado inteligente quem tem boas notas nos testes de avaliação. E não são consideradas outras competências, nomeadamente a criatividade, ou as competências mais práticas. 

Qual é o risco desta perspetiva? Os alunos que, por algum motivo, não conseguem atingir os objetivos definidos, ou são alunos medianos, poderão sentir que não são tão bons como os outros ou que não poderão vir a ser adultos bem-sucedidos. 

Felizmente, esta perspetiva está a mudar, nomeadamente com a valorização dos cursos profissionais e outros formatos de ensino que permitem aos alunos experienciar metodologias de avaliação mais prática e em muitos casos mais ao encontro dos interesses e objetivos dos alunos.  

O que está a acontecer neste momento?

Este sistema continua a ser o modelo de ensino na generalidade do ensino. As nossas crianças entram no sistema escolar quando têm seis anos e todos aprendem os mesmos conteúdos (português, matemática,…) da mesma forma e ao mesmo ritmo. Pretende-se que todos atinjam os mesmos objetivos da mesma forma e no mesmo momento. Será algo assim possível?

Além disso, o sistema de ensino atual procura preparar os alunos para o futuro da mesma forma que o faziam no passado, fazendo com que os alunos não tenham interesse nos conteúdos escolares e por isso acabem por não ter acesso ao desenvolvimento de competências que a escola devia desenvolver. Estes alunos não veem qualquer utilidade na escola e acham os seus conteúdos aborrecidos e desajustados dos seus interesses e do que vai ser a sua carreira futura. É comum ouvirmos “Não percebo porque tenho de aprender isto. Isto não serve para nada.” E ainda que esta frase seja usada com exagero e possa ser atribuída à inconsciência própria da juventude, todos concordamos que os conteúdos atualmente trabalhados na escola, bem como as atividades e estratégias utilizados para os trabalhar, deveriam ser ajustados à nossa realidade atual e às características dos atuais alunos. 

Embora a vasta maioria dos professores reconheça a importância do ensino personalizado, é complicado (ou mesmo impossível), personalizar o ensino quando se tem à frente 25 ou 30 alunos e há um programa rígido e extenso para cumprir, embora muitos professores estejam a fazer um trabalho extraordinário tentando ir ao encontro das necessidades e objetivos dos seus alunos.   

O mundo está em constante mudança e esta mudança acontece a uma velocidade incrível, o que exige de nós competências como a flexibilidade, a resiliência, o trabalho em equipa, o espírito crítico e o empreendedorismo. No entanto, a escola favorece a obediência a regras, o estudo dos conteúdos trabalhados sem questionamento e o trabalho e estudo individuais. A escola não está a preparar os nossos jovens para serem criativos, para opinarem de forma construtiva sobre os conteúdos escolares e para trabalharem em grupo. 

Embora em várias escolas sejam visíveis esforços de mudança, estes são fortemente condicionados pelos complexos programas escolares que os professores são forçados a cumprir, bem como pelos exames obrigatórios que os alunos têm de fazer para prosseguir os seus estudos. 

É necessária uma mudança de base para que a pressão insana de cumprir programas, conteúdos e regras desapareça e dê espaço para que as escolas e professsores possam acolher os contributos dos alunos

E o futuro? O que nos reserva?

Hoje em dia muitas pessoas estudam, interrogam-se, questionam como será a melhor forma de educar as nossas crianças e jovens, tendo em conta que eles devem estar preparados para um mundo em constante mudança (uma mudança tão rápida que nem nos permite antecipar o que acontecerá no próximo ano), para uma sociedade totalmente globalizada, mas ao mesmo tempo para que mantenham a sua identidade social e cultural e para que sejam respeitadas as suas necessidades e características individuais. 

Como poderemos ajudar os jovens a recuperar o gosto pela escola e pela aprendizagem em geral? 

Como podemos prepará-los para um mundo em constante mudança, exigente e muitas vezes cruel e implacável para quem não é resiliente e flexível? 

E ao mesmo tempo promover a empatia e não a competição? 

Idealmente com uma mudança de fundo que alterasse radicalmente a forma como estão construídos os programas escolares e a avaliação. 

Enquanto isso não é possível, está na mão de todos nós produzir alguma mudança, por pequena que seja. Nas palavras sábias de Gandhi “Sê a mudança que queres ver no mundo.” 

Podemos promover reuniões com a escola, apoiar os nossos filhos, amigos ou familiares, organizar atividades extracurriculares que abram horizontes ou apenas proporcionem momentos agradáveis. As possibilidades são infinitas.

O que vais fazer para mudar a educação? 

Deixo aqui este vídeo de Sir Ken Robinson que me inspirou a refletir e a escrever sobre o tema:

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